Eu sou o mar. Não importa se o sol está brilhando fortemente e as ondas quebram de um jeito bonito, eu ainda vou sussurrar lamúrias. Não importa se a minha volta tem muita areia, pessoas bonitas e felizes, eu continuo melancólica, porque as pessoas escolheram estar na areia e não junto de mim. Sinto que posso brilhar como ele em dias ensolarados e posso também esquentar até ser insuportável. No frio, ninguém vem mergulhar em mim, porque a temperatura baixa causa tremor.
Eu preciso, como o mar, de um surfista corajoso que iria aprender a acompanhar minhas ondas e meu caos. Um jovem sereio disposto a me afogar em seus castanhos olhos, seu corpo moreno alto forte e seu jeito desajeitado de ser. Quando um bravo rapaz decidir me escolher nos dias de sol e chuva, saberei que finalmente o mar tomou a amar o barulho das próprias ondas, sua maresia, sua brisa gelada e sua maré. Saberei que ele encontra-se manso, não dá caldo em ninguém e deixa as crianças pularem pequenas ondinhas na orla. Saberei que o Tom Jobim e o Vinicius de Moraes passaram por ali namorando mais um verso romântico. Terei a certeza de que mais um samba de amor vai ser composto por um desses artistas de rua. Saberei que nasce mais um Seu Jorge.
Quando um homem mergulhar nos meus olhos castanhos claros e fizer deles morada, poderemos morrer de amor. Ele me dedicará "Sereia", do Roberto Carlos, e não o enrolarei nos meus cachos. Só o prenderei de abraços e carinho enquanto xuxuzinho toca ao fundo. Quem sabe, iremos morar na praia e seremos agraciados por muita brisa marítima e Natiruts. Talvez nos apaixonemos ao ponto de amenizar o ódio pelo capitalismo e, quem sabe, iremos viver as clássicas músicas do Charlie Brown Jr. Quem sabe? Eu não sei ainda, pois, como o mar, tenho uma maré confusa que vai e vem: a dúvida cruel de não saber quando o amor me agraciará e preencherá meus dias com a mais pura felicidade.


