FA-TAL.
"Eu não tô preocupada em ser uma mulher gostosa, ser uma mulher sensual, isso isso vem de mim muito espontaneamente."
Acho que uma das coisas que eu mais admiro em Gal Costa, dentre tantas, é sua sensualidade. Ela não tem nada que se configure como a “beleza masculina” atualmente tão discutida. Corpo não muito avantajado; o que a tornava única eram seus gritos revolucionários e o dendê típico das baianas (FA-TAL). Isso simplesmente vinha dela, como a própria diz:
“Eu não tô preocupada em ser uma mulher gostosa, ser uma mulher sensual, isso isso vem de mim muito espontaneamente.”
Quando Gal diz isso, ela tem segurança total de quem é e isso é lindo. É fatal. Isso também faz uma ponte na minha cabeça para as pessoas que leem tim-tim por tim-tim em listas de como ser mais interessante e aquele blá-blá-blá danado. Quando seguimos uma “receita”, seguimos um aesthetic (ou core) e nos rotulamos. O que sobra? Nada. Desse modo, aceitamos uma imposição, um conjunto de atitudes que nem nos pertence. Interessante é a coisa mais subjetiva que existe. Hoje, enquanto discutia sobre Ritual (2000) com meu amigo Cau, ele mostrou certo desinteresse; já eu, a maluca do cinema, tentei explicar o meu fascínio com a cinematografia de Hideaki Anno na trama e a peculiaridade com que ele dinamiza as interações e emoções humanas. Eu detestei o rumo que o filme toma, mas, até certo ponto, foi uma das coisas mais interessantes que vi, porque ele bota tudo o que falei anteriormente em uma lente aumentativa de microscópio. Para Cau, era uma estranhice nada atrativa, mas mim foi uau! É sobre isso a vida: há coisas que cativam uns e nada interessam aos outros. Eu sou apaixonada por filmes do Wong Kar-Wai e eles não cativam muitos devido ao silêncio, à dinâmica lenta, à falta de conflitos grandes demais. Para ser realista, as personagens de Wong criam os próprios problemas e talvez eu as ame por eu ser bem parecida.
Voltando ao grande tópico central, a gente se preocupa tanto em passar essa imagem de femme fatale, coquette, interessante, a maior mpbicha desse calçadão, que no fim a gente não exala nada. Quando não nos preocupamos, como Gal propõe, é que podemos pôr em prática o ser sem forçar; vai ser espontaneamente exalado. Eu já me importei demais com a imagem que ia passar, era do tipo:
“Nossa, será que eu comento sobre série tal? Ninguém deve conhecer, vão me achar estranha!”
“Será que eu uso essa roupa? E se ninguém gostar?”
“Essa música não é comum, vão me julgar!”
Atualmente, estou nem aí. Percebi, por fim, que ninguém repara tanto no que eu visto, porque tem outras dez pessoas andando no shopping também. Se eu comentar dessa música, alguém pode conhecer e querer ser meu amigo. Se eu mostrar que conheço esse filme, posso ser vista como alguém interessante ou não. É tudo relativo. Subjetivo. Ser fatal é algo que vem de dentro. Quando eu parei de forçar também ser bonita, eu simplesmente me tornei e, desse modo, fui vista como atraente ou não por pessoas que me interessavam de volta ou não. Essa repetição proposital do “ou não” não é eu querendo dar uma de Marília Mendonça e propor: “Quem eu quero, não me quer. Quem me quer, não vou querer“, todavia mostrar como nós, seres humanos, estamos submetidos a essa dualidade da vida e que querer ter controle da nossa imagem não dá resultado nenhum além de sofrimento sem motivo.




amei!!! a melhor coisa é deixar de se importar e só ser.
quanto a Gal, baiana né? baianas têm um "quê" demais.